Um salto no tempo

 

A destruição de acervos audiovisuais das emissoras brasileiras por incêndios é um dos piores capítulos da história da televisão e por si só merecia um estudo de causas e efeitos. As causas quase sempre foram nebulosas, mas os efeitos são bem conhecidos. Programas memoráveis, interpretações únicas e apresentações inesquecíveis foram perdidas, privando os telespectadores da possibilidade de ver e rever grandes momentos da televisão e da história do país.

Há algum tempo os arquivos audiovisuais começaram a ser tratados como ativos das empresas de comunicação que podem ter sua rentabilidade ampliada. Por isso passaram a receber os devidos cuidados para estarem em boas condições no momento de serem reutilizados.

Com a missão de digitalizar mais de 80 mil horas de imagem do acerto de fitas de 1 e 2 polegadas (BCNs e Quadruplex), U-Matic, Beta analógico, além de outros formatos, José Chaves, diretor de tecnologia da TV Cultura de São Paulo e sua equipe de engenharia desenharam em 2005 um novo sistema de gerenciamento de ativos digitais. A evolução tecnológica se estendeu à estrutura física da emissora e às áreas de produção, edição, exibição, consumindo cerca de US$6 milhões.

Revendo conceitos

José Chaves, diretor de tecnologia da TV Cultura de São Paulo, e sua equipe de engenharia desenharam em 2005 um novo sistema de gerenciamento de ativos digitais. A evolução tecnológica se estendeu à estrutura física da emissora e às áreas de produção, edição, exibição, consumindo cerca de US$ 6 milhões

José Chaves, diretor de tecnologia da TV Cultura de São Paulo, e sua equipe de engenharia desenharam em 2005 um novo sistema de gerenciamento de ativos digitais. A evolução tecnológica se estendeu à estrutura física da emissora e às áreas de produção, edição, exibição, consumindo cerca de US$ 6 milhões

Tipicamente, um arquivo de 1 hora com qualidade de 50 Mbps/s, ocupa cerca de 20 GB de armazenamento e impõe grandes exigências às redes de dados. Além disso, quando extrapolamos essas exigências para centenas ou milhares de horas de arquivo, fica claro o quanto é importante definir uma solução que contemple armazenamento, pesquisa e resgate dos conteúdos.

Para começar a atender estas exigências, o primeiro passo dado pela emissora foi implantar o Media Portal, uma solução brasileira para gerenciar grandes volumes de conteúdo digital, tais como vídeos, sons, gráficos, fotos, livros, álbuns, seja qual for à origem.

Graças a essa solução, uma tarefa de inspeção ou seleção de cenas pode ser feita a partir de uma réplica em baixa resolução dos arquivos originais, usando um arquivo compatível com o Quicktime a 300 kbps. Assim, apesar de ter o mesmo conteúdo, o arquivo possui um tamanho muito menor e é mais fácil de ser distribuído para pré-edições e decupagens feitas pro jornalistas, por exemplo. Quando a necessidade é editar, finalizar ou exibir, o software disponibiliza o arquivo em alta resolução. O resultado é que a TV Cultura reduziu significativamente a quantidade de fitas e o tempo de consumo na procura de materiais.

A digitalização do acervo também exigiu a revisão no fluxo de trabalho (ingest e conversões) e a reorganização do acervo, com indexação de conteúdos e metadados.

Passado e presente convivem em harmonia na TV Cultura. Diariamente, fitas de 1 a 2 polegadas são digitalizadas e indexadas num processo minucioso, que envolve especialistas de diferentes áreas

Passado e presente convivem em harmonia na TV Cultura. Diariamente, fitas de 1 a 2 polegadas são digitalizadas e indexadas num processo minucioso, que envolve especialistas de diferentes áreas

Novas ferramentas

Um grande diferencial nas soluções de gestão de ativos digitais é a possibilidade de movimentar os arquivos dentro da rede corporativa de forma simples e transparente. As movimentações podem ser traduzidas em fluxo de arquivamento em fita LTO, fluxo de recuperação para exibição (disponibilização no servidor de vídeo de exibição) e fluxo de recuperação para edição de material (disponibilização em ilhas de edição), por exemplo.

Através dessas funcionalidades, as diferentes áreas de armazenamento passam a ser gerenciadas para que o arquivo requisitado seja rapidamente disponibilizado, isto é, existe uma inteligência capaz de encontrar o arquivo mais próximo e acionar a movimentação para a área desejada.

Isso é possível por que o sistema é modular, escalável e capaz de gerenciar diversos formatos de arquivos para permitir a sua distribuição. A solução do Media Portal possui ainda um módulo de conversão de formatos, possibilitando a integração de ilhas de edição de diferentes fornecedores.

Todos os arquivos digitalizados da TV Cultura são gravados em fitas LTO (Linear Tape-Open), um formato que não foi projetado para ser utilizada em ambiente de televisão, mas cuja robustez e custo acessível permitiram a sua entrada nessa área.

Manutenção das máquinas Ampex, e robótica com os drives de fitas LTO que recebem os arquivos digitalizados

Manutenção das máquinas Ampex, e robótica com os drives de fitas LTO que recebem os arquivos digitalizados

Arquitetura do Sistema

O sistema base para controle e gestão do acervo é composto por quatro servidores, rede fiber channel e rede gigabit. Adicionalmente existem áreas de armazenamento tais como storage buffer e robótica onde as fitas LTO são manipuladas. Os quatro servidores são necessários, pois existem quatro serviços diferentes a serem prestados. Serviço de banco de dados, Serviço de movimentação de arquivos, Serviço de transcodificação de formatos e Serviço para distribuição da representação de baixa resolução.

Serviço de banco de dados: é um componente importante do sistema, pois ele implementa o catálogo, a base de indexação e ainda registra todo o histórico de cada item do acervo, permitindo saber quando e por quem foi digitalizado, quando e por quem foi recuperado, e outras informações necessárias para os trabalhos de gestão e administração do acervo;

Serviço de movimentação de arquivo: o serviço de movimentação de arquivos é controlado pelo componente Queue Handler, que administra as áreas de armazenamento e os caminhos para movimentação de arquivos de forma a obter o máximo desempenho. Esse desempenho, aliás, é resultante dos parâmetros que controlam a banda disponível na rede e capacidade de throughput do arranho de discos.

Serviço de transcodificação de formatos: este serviço permite a criação de representação em baixa resolução e ainda fazer conversões entre diferentes formatos de vídeo, inclusive HDTV.

Todos os conteúdos digitalizados podem ser pesquisados através do Media Portal, que foi integrado pela Videodata

Todos os conteúdos digitalizados podem ser pesquisados através do Media Portal, que foi integrado pela Videodata

Serviço para distribuição da representação de baixa resolução: através dele, muitas pesquisas podem consultar e ver um vídeo sem precisar acessá-lo em alta resolução. Este serviço substitui o uso de VTR’s para as atividades de consulta, aprovação e revisão, que não precisam envolver o máximo de qualidade de vídeo.

Os conceitos envolvidos na digitalização da TV Cultura ainda reúnem os componentes storage buffer e robótica. O storage buffer consiste em uma área de armazenamento temporária para o tráfego dos arquivos de alta resolução entre a robótica e os servidores de vídeo. Ele pode ter um tamanho variável começando com alguns TB até centenas de TB. O seu dimensionamento depende da quantidade de material trefegado diariamente e do ciclo de vida desse material. O uso de um storage buffer para jornalismo tem características diferentes daquelas usadas na produção de programas.

Já a robótica ajuda a automatizar os procedimentos de arquivamento e recuperação de material. A capacidade de paralelismo depende da quantidade de drives instalados. Algumas robóticas permitem apenas um drive, mas existem outras com dois drivers e até com 32 drives para grandes sistemas.

Aquisições para a mudança

A produção da emissora travalha com 4 Avid Media Composer Adrenaline, 1 DS Nitris e 9 Apple Final Cut. Todas as ilhas estão ligadas em rede gigabit, com entradas e saídas de vídeo HD-SDI. A rede das estações ainda tem dois storages de 33 e 45TB e cada uma delas trabalha com um formato. Além do DV25 do jornalismo, os materiais são gravados em MPEG-2 50 para programas SD e MPEG-2 100 para programas HD, sendo armazenados nos servidores K2 da Grass Valley

A produção da emissora travalha com 4 Avid Media Composer Adrenaline, 1 DS Nitris e 9 Apple Final Cut. Todas as ilhas estão ligadas em rede gigabit, com entradas e saídas de vídeo HD-SDI. A rede das estações ainda tem dois storages de 33 e 45TB e cada uma delas trabalha com um formato. Além do DV25 do jornalismo, os materiais são gravados em MPEG-2 50 para programas SD e MPEG-2 100 para programas HD, sendo armazenados nos servidores K2 da Grass Valley

Em 2005, na então gestão do presidente Marcos Mendonça, a TV Cultura assinou contrato de fornecimento para comprar equipamentos da Thomson, atual Grass Valley, e de outros fabricantes. Com isso, e emissora modernizou e reformou suas ilhas de produção, jornalismo, edição, centrais técnicas, controle mestre e reformou sua estrutura física.

A equipe de engenharia elaborou um Plano Diretor para reorganizar o fluxo de trabalho e entre as mudanças, a edição digital passou a ser integrada ao armazenamento centralizado.

A emissora passou a utilizar tecnologia wideband, SD e HD, na produção nos estúdios e na exibição, além de armazenar e exibir em tapeless. O controle mestre passou a operar em digital e fornecer sinal digital até os transmissores, onde passou a ser codificado em analógico PAL-M.

O projeto inicial estava voltado para uma instalação independente em HD, jornalismo eletrônico e uma produção para cinema digital. Entretanto, ele foi modificado para produção de TV e não de cinema.

Foram adquiridas 27 câmeras da Grass Valley e outras duas para cinema digital Viper (GV); quatro switchers com oito painéis para a Unidade Móvel 1 e Controles; quatro router switchers; sete servidores de vídeo; sendo seis SD e um HD; equipamentos modulares para distribuição; frame-synchronizer; embedders e deembedders; up e down converters. Quatro encoders e deembedders; up e down converters; encoders e decoders; quatro mixers Yamaha DM-1000 e DM-2000; duas matrizes de comunicação Clearcom; tripés Sachtler e pedestais Vinten; 22 lentes Canon; dois gravadores para cinema digital Stwo; 22 Multiviwers Miranda Kaleido-alto e duas ilhas de edição Avid Adrenaline.

Alexandre Tahuata, diretor de projetos da emissora, defende uma norma clara em relação à nomenclatura dos arquivos para gravação e tráfego de arquivos

Alexandre Tahuata, diretor de projetos da emissora, defende uma norma clara em relação à nomenclatura dos arquivos para gravação e tráfego de arquivos

A utopia do formato único

Como tem se repetido em diversas emissoras do país, a introdução de câmeras de alta definição nem sempre é acompanhada dos demais itens que compõe o workflow para produção nesse formato. Normalmente são escolhidos alguns programas e estúdios piloto para adaptação das equipes envolvidas na produção e realização de testes de luz e enquadramento, por exemplo.

Na TV Cultura essa realidade não é diferente. Nem tudo o que a emissora produz está em alta definição e mesmo os materiais captados com câmeras HD ainda não são armazenados neste formato. A “Vila Sésamo”, por exemplo, é captada com quatro câmeras Grass Valley LDK 6000, produzido numa mesa de Grass Valley Kayak e armazenada em um servidor Grass Valley K2 SD. Já na pós produção, o material em formato MPEG2@50 Mbits/s segue para estações de edição Avid Adrenaline.

Esta implementação já contribuiu significadamente na economia de fitas e tempo, pois tudo é feito em rede. Mas, apesar da economia, nem tudo são flores e a comunicação de arquivos entre soluções de fabricantes diferentes levou algum tempo para ser afinada. Segundo Alexandre Tahuata, diretor de projetos, o problema dos fabricantes é definir uma norma clara em relação à nomenclatura usada para a gravação e o tráfego de arquivos.

“Você tem um arquivo MPEG que não fala com outro MPEG, um IMX que não fala com IMX, um formato que não fala com outro. Esse é o maior problema de configurar um work-flow para pós-produção.” Ele continua: “A migração dos formatos de arquivo tem sido a problemática, pois o mercado não tem as soluções necessárias e nós temos que desenvolver. O processo de mudança de arquivo de uma área para oura é dificultoso”, afirma.

O departamento de engenharia da emissora já fez uma experiência para trabalhar com formato único. A intenção, de acordo com Tahuata, era de ter uma área que convertesse os formatos para MXF, mesmo que o vídeo tivesse sido captado com uma câmera Panasonic P2, uma Ikegami ou câmera DV. Entretanto eles perceberam que o tempo levado na conversão dos formatos era muito grande. Então foi preciso criar fluxos separados e no final, para a exibição, converter tudo para MXF.

Enquanto não é possível trabalhar num formato único, a emissora encontrou no software de edição não-linear Apple Final Cut Pro a melhor alternativa para receber, editar e exportar arquivos. Sua principal vantagem é o plugin de conversão que aceitava vários formatos, além de figurar como uma das soluções mais amplas e baratas do mercado.

Jornalismo tapeless

Na Cultura, enquanto as seis equipes de externas e os jornalistas da redação saem em busca de notícias, a equipe de engenharia trabalha para facilitar o trabalho da edição. No núcleo de jornalismo, a captação é feita com câmeras que não usam mais fitas, como as P2 da Panasonic. Segundo Tahuata, elas tem se mostrado mais eficientes e econômicas. O material dos cartões P2 é gravado no servidor central, quando, ao mesmo tempo, é gerada uma versão em baixa resolução para edição.

Algumas estações de edição tem dificuldade para abrir certos formatos de gravação, como os utilizados pelas câmeras Ikegami GF CAM, que também são usadas pela emissora. Por conta disso, a TV Cultura trabalha para casar a captação com a edição e a pós produção. “Se captarmos no mesmo formato de edição, ganhamos mais agilidade e não perdemos tempo convertendo. Queremos ter uma diversidade de codec, de formatos e equipamentos de captação, edição, exibição. Assim podemos otimizar a qualidade”, diz o gerente de projetos.

Para os repórteres editarem as suas matérias, a emissora vai instalar o sistema de edição GV Aurora, que permite visualizar e editar em baixa resolução, integrando e agilizando o workflow.

O sistema Aurora trabalha com o conceito de liderança flutuante, ou seja, o software pode ser instalado em quantas máquinas forem necessárias. Porém, somente um determinado número de usuários poderá trabalhar simultaneamente. Existem ainda diferentes tipos de ilhas, cada uma com características operacionais próprias. Atualmente a emissora possui duas ilhas de Ingest (Aurora RMI), uma ilha de edição com entrada de vídeo (Aurora Edit), uma ilha de finalização (Aurora Craft), quatro ilhas de edição (Aurora Edit LD) e dez ilhas de visualização com capacidades básicas de edição (Aurora Browse).

A fábrica

Não foram apenas os equipamentos que precisaram ser revistos na atualização da emissora. O Plano Diretor previu ainda a reforma nas salas de controle, ilhas de produção e servidores, que ganharam paredes de vidro. José Chaves diz que a exposição com vidros nas ilhas é para deixar claro o que está acontecendo em cada uma delas. “Por não ter concorrência comercial, o grande viés da TV pública é mostrar o que está fazendo, as suas construções e soluções de engenharia. Isso aqui é uma fábrica”, diz.

Os espaços carpetados ganharam piso frio na área de rolamento das cadeiras para evitar a deterioração do carpete. Na central técnica, o piso suspenso por onde passavam centenas de fios foi trocado por canaletas.

Hoje os servidores ficam sobre essas canaletas que possuem 1 metro de profundidade. Todo o cabeamento está catalogado numa espécie de mapa, que indica as entradas e saída dos fios, sendo que cada um deles tem um código. Uma solução que reduz significadamente a quantidade de fios e facilitou a identificação.

Para resolver a refrigeração que era ineficiente e podia prejudicar os equipamentos, a TV Cultura contou com o apoio da AES Eletropaulo em um projeto de modernização dos sistemas de iluminação e climatização, que visou combater o desperdício de energia elétrica através de atualização tecnológica. O consumo das instalações da Rádio e TV Cultura diminuíam 39% ao ano, conta Chaves.

O projeto de atualização tecnológica, implantado há três anos, incluiu a substituição e adequação dos sistemas existentes por novos, como lâmpadas fluorescentes compactas de 15W e 48W. Os reatores eletromagnéticos foram substituídos por reatores eletrônicos de alta eficiência e as luminárias dotadas de refletores espelhados e luminárias espelhadas de alto rendimento.

Para atender o sistema de climatização, foram instaladas torres de resfriamento, reservatório de termo-acúmulo, bombas de água gelada e de condensação, fan coils e rede de dutos e tubulações.

Atualmente a TV Cultura, além e programação principal e analogia, digital e em One-Seg, a emissora transmite a TV Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo) pelo canal 2.2 e a Multicultura no 2.3. Com isso, a emissora é a primeira do Brasil a utilizar os recursos de multiprogramação.

INFORMAÇÃO ADICIONAL:

Categoria: Broadcast
Cliente:
Fundação Padre Anchieta
URL: www2.tvcultura.com.br/fpa/